TeCNé, Episteme y Didaxis: TED
Universidad Pedagógica Nacional
A prática docente e a
educação CTS: reflexões a
partir do tema agrotóxicos
Teaching Practice and STS Education:
Reflections from the Topic of Pesticides
La práctica docente y la educación CTS:
reflexiones a partir del tema pesticidas
Para citar este artículo: Kist, D. y München, S. (2024). A prática docente e a educação CTS: reflexões a partir do tema agrotóxicos.TeCNé, Episteme y Didaxis: ted, (55), 12-28https://doi.org/10.17227/ted.num55-19012
1 Resumo
Este artigo de pesquisa tem como foco a prática docente a partir de uma
proposta didática sobre o tema agrotóxicos, desenvolvida na disciplina de
Química em uma turma de terceiro ano do Ensino Médio, pautada nos pressupostos
da Educação CTS (Ciência-Tecnologia-Sociedade). O tema, considerado
controverso, estava relacionado ao contexto dos estudantes. Desta forma, a
análise objetivou identificar as implicações, desafios e potencialidades no e
para o ensino de Ciências. A abordagem metodológica é qualitativa, partindo
da análise do diário de bordo, produzido no decorrer das aulas. Os excertos
foram analisados de acordo com a Análise Textual Discursiva, emergindo uma
categoria final intitulada: Reflexões sobre a prática docente frente a Educação
CTS. Os resultados contribuem para evidenciar o ato de refletir sobre o que se
deve ensinar e o que se ensina, promovendo debates voltados para o contexto
que objetivam a formação de cidadãos críticos, do mesmo modo que auxilia
positivamente na constituição do professor. Dentre os resultados destaca-se
a falta de tempo dos professores, condições e ferramentas para promover o
ensino de forma interdisciplinar e, ainda, a falta de formação inicial e/ou continuada
pautada nos pressupostos da Educação CTS. Assim, as potencialidades
se referem às modificações na prática docente, identificadas neste trabalho,
sendo oriundas de reflexões e vivências de atividades em sala de aula a partir
da Educação CTS.
Palavras-chave
ensino de ciências; Ciência-Tecnologia-Sociedade; temas; ensino médio;
Química
2 Abstract
This research article focuses on teaching practice based on a didactic proposal
about the topic of pesticides, developed in Chemistry discipline in a
third-year high school class, based on the assumptions of sts Education. The
topic, considered controversial, was related to the students’ context. Thus, the
analysis aimed to identify the implications, challenges, and potentialities in
and for science teaching. The methodological approach is qualitative, based
on the analysis of the logbook produced during the classes. The excerpts were analysed according to the Textual Discourse Analysis, resulting in a final category entitled: Reflections
on the teaching practice facing the sts (Science, Technology, Society) Education. The results
contributed to highlight the act of reflecting on what should be taught and what is taught, fostering
context-oriented debates that aim at the formation of critical people, in the same way that it helps
positively in the development of the teacher. Among the results, we can highlight the teachers
lack of time, conditions, and tools to promote teaching in an interdisciplinary way, as well as the lack
of initial and/or continuing formation based on the assumptions of sts Education. Therefore, the
potentialities refer to changes in teaching practice, identified in this work, originating from
the reflection and experience of classroom activities based on sts Education.
Keywords
science teaching; Science-Technology-Society; topics; high school; Chemistry
3 Resumen
Este artículo de investigación se centra en la práctica docente a partir de una propuesta didáctica
sobre el tema pesticidas, desarrollada en la disciplina de Química en una clase de tercer año
de secundaria, basada en los supuestos de la Educación CTS (Ciencia, Tecnología, Sociedad). El
tema, considerado controversial, estaba relacionado con el contexto de los estudiantes. De esta
manera, el análisis pretendía identificar las implicaciones, los retos y las potencialidades en y
para la enseñanza de Ciencias. El enfoque metodológico es cualitativo, basado en el análisis de
cuaderno de bitácora, elaborado durante las clases. Los fragmentos fueron analizados según el
Análisis Textual del Discurso, surgiendo una categoría final titulada: Reflexiones sobre la práctica
docente frente a la Educación CTS. Los resultados contribuyen para evidenciar el acto de reflexionar
sobre lo que se debe enseñar y lo que se enseña, promoviendo debates centrados en el contexto
que apuntan a la formación de ciudadanos críticos, de la misma forma que este ayuda positivamente
en la constitución del profesor. Entre los resultados se destaca la falta de tiempo del profesorado,
condiciones y herramientas para promover la enseñanza de forma interdisciplinar, así como la
falta de formación inicial y/o continúa basada en los supuestos de la Educación CTS. Así, Las potencialidades
se refieren a los cambios en la práctica docente, identificados en este trabajo, siendo
originadas de reflexiones y experiencias de las actividades en el aula a partir de la Educación CTS.
Palabras clave
enseñanza de las ciencias; Ciencia-Tecnología-Sociedad; temas; enseñanza secundaria; Química
4 Introdução
A Educação CTS (Ciência-Tecnologia-Sociedade)
abrange vários conceitos, objetivos e
denominações que variam entre Movimento
CTS, enfoque CTS e abordagem CTS. Tanto a variação
nominal quanto os conceitos elencados
a cada termo se interligam em vários aspectos
fundamentais. Referente a denominação, Strieder
(2012) propõe que o termo Movimento CTS
é utilizado para abranger uma parcela mais
geral de discussões, já o Enfoque CTS passa
a inserir os pressupostos do movimento CTS
dentro da área da educação e, por sua vez,
o termo Abordagem CTS, passa a categorizar
as diferentes possibilidades de se trabalhar as
relações CTS no Ensino de Ciências.
Portanto, aqui utilizamos a denominação Educação CTS por esta elencar aspectos entre a tríade CTS, o Ensino de Ciências e a prática docente. Ainda, de acordo com Strieder (2012), destacamos os pontos chaves trazidos pela autora para justificar o uso do termo Educação CTS:
[…] proporcionar aos alunos meio de emitirem julgamentos conscientes sobre os problemas da sociedade; proporcionar uma perspectiva mais rica e mais realista sobre a história e a natureza da ciência; tomar a ciência mais acessível e mais atraente a alunos de diferentes capacidades e sensibilidades, e preparar os jovens para o papel de cidadãos em uma sociedade democrática. (Strieder, 2012, p. 15)
Igualmente, para Santos e Schnetzler
(2010, p. 61), o termo “[…] está vinculado
à educação científica e cidadã”; alinhada a
ideia anterior, Santos (2011, p. 23) afirma
que “o movimento CTS assumiu como objetivo
o desenvolvimento da capacidade de
tomada de decisão na sociedade científica
e tecnológica e o desenvolvimento de valores”.
Consequentemente, Santos e Mortimer (2002)
ainda apontam que a Educação CTS busca
desenvolver a tomada de decisões e por isso
objetiva a formação para a cidadania, da
mesma forma que Auler (2011) explana que
se deve reinventar CTS para que seja uma
educação voltada para a formação de sujeitos
autônomos. Gutierrez e Cesar (2016)
destacam as complexas relações entre ciência
e sociedade no mundo contemporâneo e,
portanto, a necessidade de manter aspectos de
formação humanística associados ao ensino
de Ciências.
Partindo das compreensões apresentadas,
aqui propomos a Educação CTS por meio de
uma abordagem temática. Para Delizoicov
et al., (2011) utilizar-se da abordagem temática
requer trabalhar em uma perspectiva
baseada em temas a partir dos quais são
selecionados os conteúdos para o ensino das
disciplinas. Destacamos que a proposta da
abordagem temática é justamente elencar o
contexto dos estudantes com a temática que
será trabalhada e, após, aprofundar estes
conhecimentos até o momento de inserir
os conteúdos curriculares em questão.
Assim, segundo Halmenschlager (2014),
existem diferentes compreensões a respeito
das temáticas, mas todas elas remetem a ideia
de o tema englobar a dimensão conceitual e
social, sendo os conceitos científicos subordinados
ao tema; portanto, ela se direciona
para os objetivos da Educação CTS, a formação
crítica e cidadã, sendo facilmente elencadas
para a implementação na prática docente.
As aulas planejadas, com base na abordagem
temática e fundamentadas nos pressupostos
da Educação CTS, possibilitam que
o aluno aproxime os conteúdos escolares do
contexto ao qual habita e atua, da mesma
forma que este pode abranger uma maior
quantidade de acontecimentos.
Neste sentido, a abordagem temática compõe os objetivos da Educação CTS,
buscando demonstrar aos estudantes que os conteúdos escolares podem e devem
ser utilizados como ferramenta de compreensão de seus contextos. De acordo
com Halmenschlager (2011, p. 19), a abordagem temática “busca desenvolver
temas relacionados à comunidade escolar, que ao mesmo tempo, integram relações
CTS”, dessa forma os currículos são organizados a partir de temáticas e,
passam a trabalhar os conteúdos escolares elencados a elas (Halmenschlager,
2011). Schneider et al. (2018) pontuam que a abordagem temática tem como
característica o questionamento imediato de “por que ensinar?”
Trabalhar com a Educação CTS e a abordagem temática tem como intuito
buscar modificações no processo de ensino e aprendizagem, bem como no ambiente
escolar. Magoga e Muenchen (2018) inferem que a abordagem temática
busca mudança nas concepções escolares, no currículo, implicando na mudança
do estilo de pensamento tradicional. Refletindo sobre a atuação docente surgem
elementos de ruptura da prática docente tradicional e conteudista. Como afirmam
Colares et al., (2021) refletir sobre a prática docente é primordial para que o
ato educativo se converta em um processo permanente de reflexão, objetivando
rupturas transformadoras, sendo este o pressuposto necessário para a construção
coletiva do caráter transformador da educação.
Além disso, Imbernón (2011) aponta que a atualidade exige profissionais
com competências pedagógicas coerentes com o contexto ao qual fazem parte,
que se adaptem às modificações da sociedade e das tecnologias, buscando
conhecimentos para atuar na prática docente, primando pela formação de
cidadãos ativos em sociedade; ainda reafirmando que, “[…] a nova era requer
um profissional da educação diferente” (p.12). Sendo assim, é importante a reflexão
sobre a prática docente, como um mecanismo que objetiva as mudanças
e adaptações necessárias, afinal, o profissional que reflete sobre sua atuação,
o faz pensando em modificá-la e qualificá-la.
Para Alarcão (1996), o conceito de professor reflexivo vai muito além da
ação docente, implicando na pessoa e nas razões pelas quais ocupa o lugar de
professor perante a sociedade, sendo agente ativo, tanto do desenvolvimento
próprio, como também da escola e do meio social ao qual pertence. O professor
reflexivo busca elementos que promovam a qualificação do processo de ensino,
como afirmam Zeichner e Pereira (2005, p. 74), “[…] os professores podem não
ser capazes de mudar estruturas sociais injustas por meio da pesquisa em sala
de aula, mas podem fazer a diferença em termos de como afetam a vida de
seus estudantes e a vida da instituição escolar […]”.
Repensar sobre as implicações e os desafios impostos na prática docente nos
conduz à reflexão sobre o que é ensinado e sobre os saberes docentes necessários
para se trabalhar em sala de aula. Kist e München (2021, p. 139) afirmam que
“as reflexões podem apontar para o que precisa ser repensado no ensino e quais
as possibilidades para a qualificação do processo de ensino e aprendizagem”; dessa forma, refletir se torna necessário e
esse ato, por sua vez, busca fazer com que
o docente possa evidenciar quais conteúdos
devem ser abordados e de que forma.
Gonçalves et al., (2007) defendem que
“quando o professor escreve, ele reflete, mesmo
que inconscientemente, sobre suas ideias.
Com base nisso, podemos afirmar que escrever
é um modo de favorecer a reorganização
do pensamento docente” (p. 230). A reflexão
da prática docente, seja ela de forma verbal
ou escrita, facilita o entendimento de aspectos
que precisam ser revisados e melhorados no
ato de ensinar, da mesma forma que externa
os problemas que precisam ser sanados nesse
processo. Vinculando esse pensamento as
ideias de Kist e München (2021), destaca-se
que “o ato de refletir sobre a própria prática
ainda viabiliza a inserção dos pressupostos
da educação CTS em sala de aula, da mesma
forma que auxilia na promoção do trabalho
calcado na interdisciplinaridade” (p. 139).
Quando se reflete sobre a prática docente,
também repensamos os conteúdos que
devem ser trabalhados em sala de aula, dessa
forma se mostra a necessidade de associá-los
ao contexto dos estudantes, com a finalidade
de formar a consciência crítica necessária
para a atuação em sociedade. A inserção da
abordagem temática pautada na Educação
Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) no processo
de ensino pode aproximar o estudante
das relações com o seu contexto.
Para Capelo e Pedrosa (2011), incluir as
inter-relações da educação CTS nos processos
de ensino e aprendizagem de ciências tem
como objetivo enfatizar que todos os alunos,
sejam capazes de ponderar argumentos e
tomar decisões, para que sejam aptos a entender
os avanços científicos-tecnológicos da
sociedade atual. Geraldo e Lorenzetti (2022)
ratifica que a abordagem CTS deve oportunizar
reflexões entre a tríade CTS (Ciência, Tecnologia
e Sociedade) e consequentemente abrirem espaços
para posicionamentos mais conscientes.
Dessa forma, por meio da elaboração
de uma sequência didática e seu desenvolvimento
em uma turma de Ensino Médio,
sobre a controversa temática que trata o uso
dos agrotóxicos, pautada na abordagem CTS;
este trabalho, baseado na reflexão da prática
docente, tem o objetivo de identificar quais são
os desafios e potencialidades que permeiam
a atuação docente frente a Educação CTS.
Sobre a utilização da sequência didática como
metodologia para se trabalhar uma abordagem
temática, Silva (2016) pontua ser viável,
pois propõe diferentes tipos de abordagens,
debates e discussões, sendo possível elencar
a ela outras atividades que promovam ao
estudante o ato de refletir sobre o ensino que
está sendo proposto.
O tema Agrotóxicos foi escolhido por fazer
parte do contexto dos alunos, pois a região
em que a escola está localizada tem a agricultura
como uma de suas bases econômicas
e sociais. Outras características associadas a
agricultura na região são a predominância
de pequenas propriedades rurais e a concentração
de plantação de soja (Feix et al., 2022).
Assim, a cultura da soja é apontada como
uma das que mais faz uso de agrotóxicos em
seu cultivo11
1
Para mais informação visitar o site: https://www.embrapa.br/agencia-de-informacao-tecnologica/tematicas/agricultura-e-meio-ambiente/qualidade/dinamica/agrotoxicos-no-brasil.
Desta forma, o trabalho aborda a investigação
da prática docente da primeira autora
ao desenvolver uma sequência didática sobre
o tema agrotóxicos no ensino de Química,
através da análise de um diário de bordo.
5 Metodologia
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza qualitativa (Lüdke
e André, 2013) e os elementos que fundamentam a investigação são oriundos
do diário de bordo da autora enquanto professora-pesquisadora, portanto, esta
pesquisa foi desenvolvida com base na investigação da própria prática docente
(Boszko e Güllich, 2016).
Neste sentido, a professora-pesquisadora possui graduação em Licenciatura
em Química, exercendo sua profissão há seis anos e como mestranda no
Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências investigou a sua própria
prática docente a partir de uma sequência didática pautada na Educação CTS. O
desenvolvimento da sequência didática ocorreu no segundo semestre de 2021,
nas aulas de Química em uma turma do terceiro ano do Ensino Médio, que foi
composta por 14 estudantes de uma escola Pública Estadual. A escolha da turma
foi por esta ter retornado, em sua totalidade, ao ensino presencial e porque
a maioria dos alunos fazem parte do contexto agrícola e, consequentemente,
conhecem ou utilizam agrotóxicos. No momento da aplicação da sequência
didática, a professora-pesquisadora estava trabalhando 60 horas, divididas
em três Escolas Estaduais em três Municípios do Estado do Rio Grande do Sul,
atuando nas seguintes disciplinas: Química, Biologia, Educação Financeira e
Inovações Empreendedoras.
Após cada aula, ela se propôs escrever um diário de bordo, para que assim fosse construído o material para a análise da prática. Segundo Boszko e Güllich:
O diário de bordo (db) caracteriza-se como um instrumento a partir do qual o sujeito narra suas ações e experiências diárias, o que lhe possibilita um (re)pensar da ação, um olhar mais atento ao que foi feito e ao que pode ser melhorado. (2016, p. 56)
Os escritos contidos nesse diário foram codificados da seguinte forma: SD
(sequência didática aula 1) e consequentemente modificando o número da aula
ministrada. Igualmente, a análise foi de acordo com a Análise Textual Discursiva
(atd) (Moraes e Galiazzi, 2016), que corresponde a uma metodologia de análise
de natureza qualitativa com a finalidade de produzir novas compreensões e
reconstruções sobre os discursos apresentados.
A temática escolhida para a sequência didática originou-se do contexto dos
estudantes envolvidos na investigação, pois estes fazem parte de uma região
extensivamente agrícola com cultivo principalmente de soja, milho e trigo, com
amplo uso de agrotóxicos. Após a escolha da temática, foi desenvolvida uma
sequência didática, com um total previsto de 6 horas/aula. A sistematização das
atividades desenvolvidas encontra-se na Figura 1, apresentado abaixo.
Figura 1. Planejamento da abordagem temática sobre os Agrotóxicos
![[Uncaptioned image]](https://revistas.upn.edu.co/index.php/TED/article/download/19012/version/22682/14525/80673/fig1a551.png)
Fonte: elaborado pelas autoras, (2021).
De acordo com as ideias propostas pela
atd, inicialmente devemos unitarizar os discursos
e estabelecermos relações entre eles,
fazendo emergir as categorias iniciais, intermediárias
e finais (Moraes e Galiazzi, 2016).
Nesse processo de análise, desenvolvemos
categorias emergentes, sempre buscando
aquilo que se mostra dentro do contexto analisado
(Moraes; Galiazzi, 2016). Seguindo a
lógica de aproximação das categorias iniciais
e intermediárias, se mostrou apenas uma
categoria final: 1) Reflexões sobre a prática
docente frente a Educação CTS, englobando
a aproximação dos 34 excertos retirados do
diário de bordo, conforme mostra a figura 2.
Com a categoria final definida, a seguir, é
apresentado o metatexto contendo resultados
e discussões sobre o assunto.
Figura 2. Categorias iniciais, intermediárias e finais
![[Uncaptioned image]](https://revistas.upn.edu.co/index.php/TED/article/download/19012/version/22682/14525/80673/fig1a551.png)
Fonte: elaborado pelas autoras, (2021).
6 Resultados e análise
7 Reflexões sobre a Prática Docente frente a Educação CTS
Para a produção do metatexto é preciso combinar descrição e interpretação,
expressando intuições a partir da impregnação do corpus de análise (Moraes;
Galiazzi, 2016). Buscando o objetivo desse artigo, que é a reflexão sobre a
própria prática docente, é possível evidenciar com clareza os desafios enfrentados
durante a aplicação da sequência didática e, também da reflexão gerada
com a escrita do diário de bordo a partir da experiência do desenvolvimento
da sequência didática. Neste sentido, Santos (2021) aponta as dificuldades no
processo de reflexão da prática, afirmando que “o processo de reflexão da própria
prática não é fácil ou simples; acontece de maneira progressiva e demanda
determinado tempo para resgatar vivências e disposição para a (re)significação
da prática” (p. 52).
Dos desafios enfrentados, é possível destacar o primeiro deles: “dediquei mais
horas ao meu planejamento para que eu desse conta e para que tudo desse certo,
para que eu conseguisse alcançar meu objetivo” (SDA1), este excerto evidencia
que o planejamento demandou mais horas que o habitual, pois o objetivo era
uma aula contextualizada com a realidade dos estudantes, que os fizesse pensar
em como atuar no contexto em que eles estão inseridos. Outro ponto que vale
destacar é que, por ser uma proposta didática que visava a interação constante,
os questionamentos e posicionamentos iriam surgir, e a professora-pesquisadora,
como a mediadora da situação, deveria estar preparada para se posicionar e
direcionar as discussões.
A necessidade de ter um preparo para trabalhar com uma temática que foi planejada com base na educação CTS permite refletir sobre a própria formação da professora. Apesar de estar pesquisando a respeito e estar inserida em um contexto que debate a prática docente com essa abordagem, ainda sentiu insegurança no momento da mediação dos conceitos mais gerais sobre o assunto. O excerto a seguir demonstra essa insegurança:
O que me fez refletir principalmente sobre meu preparo em trabalhar temáticas aliadas a CTS, que talvez eu não estivesse tão preparada, mas tive êxito durante a aplicação pois me empenhei e estudei ao máximo para poder entregar um conhecimento claro e interdisciplinar aos estudantes. (SDA6)
Aqui é importante ressaltar que a temática sobre agrotóxico engloba distintas
áreas do conhecimento, mas nesse contexto foi trabalhada somente na
disciplina de Química e, para que a professora conseguisse alcançar os objetivos
da proposta vinculados à contextualização e visão ampla da temática, e
não apenas vinculada a disciplina de Química, ela propôs abordar, dentro das
suas possibilidades, distintos enfoques e relações de diferentes áreas buscando
a interdisciplinaridade. Consideramos que o desenvolvimento desta temática de forma interdisciplinar envolvendo professores
de várias disciplinas promoveria uma compreensão
mais ampliada sobre os agrotóxicos
e as questões que os envolvem. Ao mencionar
a interdisciplinaridade, nos aproximamos às
ideias de Fazenda (2011, p.73), quando a
autora coloca que a “interdisciplinaridade é
um termo utilizado para caracterizar a colaboração
existente entre disciplinas diversas ou
entre setores heterogêneos de uma mesma
ciência […]. Caracteriza-se por uma intensa
reciprocidade nas trocas, visando a um enriquecimento
mútuo”.
Assim, a pesquisadora iniciou as aulas
articulando conteúdos e ideias com as demais
áreas e disciplinas escolares, propondo reflexões
sobre elas, direcionando os estudantes
a pensar sobre as diferentes áreas e assuntos
que o tema em questão poderia abranger,
para posteriormente e gradativamente ir
aproximando-a dos conceitos químicos.
Halmenschlager (2014) ressalta que a abordagem
temática exige um entendimento mais
amplo entre o contexto dos estudantes e as
situações propostas e, para isso “[…] talvez
seja preciso a articulação entre as diferentes
áreas do conhecimento, assim como entre as
disciplinas que compõem a área de Ciências
da Natureza” (p.80). A abordagem temática
tem como característica a aproximação
dos estudantes da realidade à qual estão
inseridos, buscando fazê-los ter a percepção
sobre a necessidade de associar o contexto
com as áreas de estudo, o que pode causar
insegurança ao docente pois, certamente as
formações disciplinares nas licenciaturas não
contemplam as diferentes áreas, da mesma
forma que podem ocorrer desafios dentro da
própria formação específica.
Mesmo estudando e planejando detalhadamente
toda a sequência didática, ainda ela
teve insegurança no decorrer da aplicação,
Carvalho e Gil-Pérez (1995) discorrem a
respeito do conhecimento daquilo que se ensina
e destacam que “-quando se propõe a
questão do que nós, professores de Ciências,
devemos “saber” e “saber fazer” - é, sem
dúvida, a importância concebida a um bom
conhecimento da matéria a ser ensinada”
(p. 20). Considerando o conhecimento da
matéria a ser ensinada como um dos primordiais
conhecimentos docentes, vale ressaltar
que o momento da sequência didática que
a professora se sentiu mais confortável foi
durante a inserção dos conteúdos químicos,
especificamente, quando foi inserido o conteúdo
de funções orgânicas, relacionando-o
com a temática, assim como esboça o excerto
a seguir “nessa etapa me senti bastante segura
para mediar os debates, em meu pensamento
foi porque tratei diretamente da parte química,
da parte que tenho maior conhecimento” (SDA6).
A insegurança aqui apresentada estava atrelada ao desafio da abordagem temática, e do lugar que os conteúdos ocupam, pois é preciso conhecer as relações que a temática abordada estabelece com o contexto, assim como considerar a centralidade dos conceitos científicos, e ainda ter o domínio daquilo que se quer e que se precisa ensinar sobre qualquer debate vinculado ao tema na cultura escolar. Strieder (2012) reflete sobre as relações da abordagem temática afirmando que:
[…] na abordagem temática os conteúdos escolares são selecionados a partir dos temas, o que quer dizer que os conceitos científicos, também são selecionados a partir do tema, passando, dessa forma, de finalidade para meios utilizados para a compreensão dos temas. Esses temas constituem os objetos do conhecimento […]. (Strieder, 2012, p. 148)
Repensando as relações de tema, conteúdo,
conceitos e objetos do conhecimento
propostas por Strieder (2012), é importante destacar que a atividade que foi desenvolvida impulsionou movimento na própria
prática da docente, se aproximando ao contexto dos estudantes e fazendo refletir
sobre os objetos do conhecimento do processo de ensino, ressaltando ainda que
a prática docente pautada na abordagem temática depende do processo de formação
dos docentes. Halmenschlager (2014, p. 215) se posiciona quanto a isso
afirmando que a prática docente “depende da forma como as concepções teóricas
e práticas da proposta de ensino são trabalhadas no processo de formação”.
Desta forma, na abordagem por meio de temas, os conceitos científicos
são subordinados ao tema, e, portanto, surgem no decorrer da aplicação da
temática, conforme exposto a seguir, “minha proposta fez com que os estudantes
construíssem pensamentos críticos e relacionassem aquilo com a química, com
os conteúdos” (sdA7). Na etapa referente aos conceitos científicos destaca-se o
seguinte excerto, “consegui proporcionar a construção de conhecimentos e argumentos
críticos, fazendo os estudantes perceber que podem e devem interferir
de forma positiva em seus contextos’ (sdA7). Aqui é possível identificar o êxito no
desenvolvimento justamente por se sentir mais preparada, pois a química é a
área da formação inicial da professora e, segundo Carvalho e Gil-Pérez (1995),
“um bom domínio da matéria constitui-se, também a partir de um ponto de vista
didático, como algo fundamental” (p. 25).
As potencialidades do desenvolvimento da atividade também se destacaram,
como por exemplo, a grande participação e interesse dos alunos no tema e na
maneira como a temática foi tratada, como exposto a seguir, “os debates geraram
frutos e levamos mais tempo que o estimado” (sdA7) e isso se deve também à
proximidade da temática com o contexto dos estudantes, gerando maior interesse
na aprendizagem. Consequentemente, um dos objetivos da Educação CTS é buscar
a solução de problemas da vida real que envolvem aspectos sociais, econômicos
e políticos, sempre objetivando preparar o cidadão para a participação ativa em
sociedade (Santos e Schnetzler, 2010), mas o fato de aproximar-se do contexto
não torna a abordagem fácil, assim como apresentam Geraldo e Lorenzetti (2022,
p. 17), “embora os pressupostos da Educação CTS sejam de fácil identificação,
as práticas CTS podem congregar diferentes elementos didáticos-pedagógicos”,
exigindo um maior domínio de saberes por parte dos professores.
Acerca da própria atuação docente da pesquisadora, pode-se destacar
que trabalhar a abordagem temática pautada na Educação CTS é uma tarefa
desafiadora e exige muito preparo. O excerto a seguir revela que, ela conseguiu
se posicionar perante a isso e propor diálogos com os estudantes, “nesse
momento apresentei com mais firmeza o termo CTS, os fazendo refletir sobre o
significado de CTS e as relações entre a tríade, que uma não se mantém sem a
outra, que devem existir mutuamente, que esta ideia de testar, produzir, vender
está diretamente ligada à CTS” (sdA4).
Propor o desenvolvimento dos pressupostos da Educação CTS na prática
docente requer o comprometimento do docente, tanto com a formação, quanto com os debates que devem ser propostos
sobre o currículo escolar. Cachapuz (2011)
menciona que sem os debates curriculares
evidenciando as necessárias modificações
teórico-metodológicas, a prática docente,
pautada na Educação CTS, corre sérios riscos
de cair em um mero modismo, o que nos
preocupa, já que o objetivo é justamente
propor que ocorra a reorganização dos currículos
buscando sempre a formação crítica
dos estudantes.
Assim, é possível verificar que os três
aspectos mencionados precisam se interligar
para que a Educação CTS de fato ocorra na
prática e “não caia em um mero modismo”,
assim como mencionado por Cachapuz
(2011). De acordo com o excerto a seguir,
“o professor sempre deve estar em formação
para poder atender as necessidades do aluno”
(sdA7), ou seja, o aprendizado constante
colabora para a prática docente qualificada.
Trabalhar pressupostos da Educação CTS em
sala de aula, sem planejamento e embasamento
teórico para a prática docente, pode
remeter facilmente a atividades repetitivas que
acabam recaindo sobre o conteudismo com
o slogan CTS.
Destaca-se que as potencialidades envolvidas
em uma proposta de abordagem
temática planejada com base na Educação CTS
são enormes, pois buscam associar o contexto
dos estudantes em seu desenvolvimento,
fazendo-os entender as relações que devem
ser estabelecidas entre os conteúdos escolares
e os acontecimentos do cotidiano, inserindo
aquilo que é aprendido em sala de aula em
seus contextos, com o intuito de compreender
e modificar o meio em que vivem. A ideia de
associar aquilo que é aprendido em sala de
aula vai ao encontro do que é descrito por
Santos e Schnetzler (2010), quando mencionam
a necessidade da formação crítica e para
a cidadania.
O contexto dos estudantes é rico em
situações para se trabalhar na prática docente,
sendo todas elas direcionadas para a
formação de estudantes como sujeitos críticos,
para que o mundo da escola se encontre com
o mundo da vida. Nesta escrita, a temática
escolhida foi referente ao uso dos agrotóxicos,
justamente por fazer parte dos contextos dos
estudantes envolvidos, preparando-os para
debater um assunto pertinente a atualidade
e as suas vivências cotidianas. Consideramos
que a abordagem do tema gerou discussões
significativas, expondo elementos contraditórios
sobre os agrotóxicos, pois os estudantes
se posicionaram a respeito de diversas controvérsias
defendendo seus pontos de vista e
o excerto a seguir relata parte das impressões
sobre os diálogos: “discutimos de forma crítica
que as pessoas não se preocupam com as
consequências, mas somente com os lucros
obtidos por meio da utilização dos agrotóxicos”
(sdA5).
Repensando o excerto acima, cabe
ressaltar que a temática abordada abrange os
pressupostos da Educação CTS, pois vislumbra
que o contexto seja repensado, que sejam
avaliados os prós e contras e impacta um
posicionamento de cada cidadão pertencente
ao espaço de discussão. Santos e Schnetzler
(2010) ainda destacam a necessidade da
formação de cidadãos que desenvolvam valores
de solidariedade, respeito ao próximo
e consciência do compromisso social para que
tenhamos seres ativos em nossa sociedade,
que possam utilizar debates, como o mencionado
nessa discussão, em prol de melhorias
coletivas.
Para que os objetivos da abordagem temática pautada na Educação CTS sejam alcançados, é preciso que o professor tenha a possibilidade de formação, desde a formação inicial que aborde a Educação CTS, até a formação continuada, que sem dúvidas agrega de forma positiva inúmeros conhecimentos. Geraldo e Lorenzetti (2022, p. 22) destacam que “[…] para docentes incorporarem a Educação CTS como viés de trabalho pedagógico e didático, é essencial uma formação que contemple a interdisciplinaridade, a reflexão da natureza da ciência e da tecnologia […]”. Complementarmente, para Imbernón (2011):
a formação continuada requer um clima de colaboração entre os professores, sem grandes reticências ou resistências […] uma organização minimamente estável nos cursos de formação de professores […], que dê apoio à formação, e a aceitação de uma contextualização e de uma diversidade entre os professores que implicam maneiras de pensar e agir diferentes. Tais exigências contribuem para que eu consiga uma melhor aceitação das mudanças e uma maior inovação nas práticas. (Imbernón, 2011, p. 31)
Repensando a afirmação proposta por Imbernón (2011, p. 31), na citação
acima, onde é descrito “não muda quem não quer mudar ou não se questiona
aquilo que se pensa que já vai bem”, podemos evidenciar a necessidade da reflexão
da prática docente para que as modificações necessárias possam ocorrer.
Refletir sobre a prática docente se torna fundamental para que o processo de
ensino e aprendizagem se qualifique; o refletir requer repensar em tudo o que foi
feito e naquilo que poderia ser modificado com o intuito de torná-lo satisfatório.
A ideia central proposta por Imbernón (2011), se aproxima da vivência
da pesquisadora como docente. Onde ela desafiou-se a mudar, desafiando a
sua própria prática docente, propondo-se a desenvolver um percurso diferente
do habitual e, em alguns momentos sentindo-se insegura diante de uma nova
prática, mas como é evidenciado no excerto, ‘meu foco é aprendizagem e nessa
atividade consegui contribuir para isso’ (sdA7). A abordagem temática pautada na
Educação CTS impactou a prática da professora, a desafiou diretamente, e esse
desconforto proposto pelo desafio, a fez repensar em inúmeras possibilidades
de qualificação do processo de ensino, emergindo questões que requeriam a
reflexão da prática docente habitual.
A qualificação do processo de ensino só irá ocorrer quando refletirmos sobre
a nossa aula, nossas atitudes na prática docente e, principalmente, sobre os
conteúdos que estão sendo ensinados e os que devem ser ensinados. Segundo
Kierepka e Güllich (2013), por meio da reflexão da prática o professor reconstrói a
sua teoria pedagógica de forma autônoma, investigativa e criativa; corroborando
Kist e München (2021, p. 11) ao afirmarem que “esta reflexão possibilita que
o professor balize os pontos que devem ser revistos e modificados em sua atuação,
para que assim a ciência ensinada na sala de aula adquira características que
a distanciem da neutralidade comumente utilizada”.
Consideramos a formação continuada como um passo que o professor
dá em sua profissão ao repensar sua prática docente, para que procure pela
formação continuada, ele precisa sair da sua zona de conforto, assim como exposto
no excerto a seguir, “refletindo sobre a minha prática, pude perceber que trabalhar com temática engrandece o processo
de ensino, pois possibilita aos estudantes e
também ao professor o famoso “pensar fora da
caixa” (sdA7). Outro ponto que cabe destaque
é sobre como a inserção dos conteúdos com
base no contexto aprimoram o entendimento
dos estudantes, o excerto a seguir relata que é
visível ao docente que os estudantes interagem
de forma mais efetiva e isso demonstra interesse
na aprendizagem, “fazendo a inserção
dos conteúdos de forma mais contextualizada
a aprendizagem ocorre de forma mais clara,
eles conseguem relacionar os conteúdos com
o contexto” (sdA7) e, consequentemente participam
ativamente da aula.
Atualmente, no contexto da professora,
os programas de formação continuada são
mais voltados para aspectos pedagógicos
gerais, não evidenciando tanto as formações
focadas nas áreas de ensino, o que seria
mais efetivo para apresentar aos professores
diferentes abordagens ou ainda, ideias de
reorganizações curriculares. Halmenschlager
(2011, p. 20) enfatiza que “o processo de
reconfiguração curricular pode se configurar
como espaço de formação continuada, sob
uma perspectiva crítica, contribuindo para o
resgate da autonomia do professor”, cabe
lembrar que o próprio encontro dos professores
da área, para discussão de assuntos
voltados à prática docente, é válido como
formação continuada.
O ato de autorrefletir sobre a prática
docente tem como objetivo a constituição do
professor, dos saberes necessários à sua profissão.
Santos (2021, p. 21), destaca que “os
saberes docentes são constituídos na trajetória
docente e se transformam durante o percurso
profissional do professor, baseados em suas
vivências e experiências […]”. Da mesma forma,
Kist e München (2021) descrevem que é
necessário que o professor tenha contato e
entendimento daquilo que deseja trabalhar, para
que não recaia em uma aplicação meramente
automática sem problematizações e reflexões
sobre o contexto dos saberes trabalhados.
Com essa proposta de abordagem
temática conseguiu-se envolver os alunos
em debates construtivos sobre o uso dos
agrotóxicos, elencando aos conteúdos de
química sobre a identificação das funções
orgânicas, a importância de cada composto,
os riscos na utilização de determinados
compostos químicos e, também, as questões
de diluição correta dos produtos para tentar
minimizar os impactos causados, estimulando
posicionamentos e fazendo relações diretas
com os pressupostos da Educação CTS, aqui
ainda é possível destacar o seguinte excerto,
“acredito que com essa proposta consegui
responder a pergunta que tanto ouço: pra que
preciso aprender química, onde vou usar isso,
inclusive fiz essa pergunta ao final da aula:
e então, onde mesmo vou usar a química?”
(sdA7), nesse momento a professora obteve
respostas dos alunos, falas que nos remetem
ao contexto de cada um, relações que demonstram
o alcance dos objetivos que foram
traçados no início da proposta.
Alcançar os objetivos do início da proposta da abordagem temática que foi desenvolvida, remete a repensar as riquezas inseridas no ato de refletir sobre a prática docente e nos benefícios para a constituição como professores e pesquisadores. Percebe-se que a docente se desafiou, se propôs mudar e usou como base de mudança a reflexão da própria prática, o repensar sobre o que estava e o que deveria estar ensinando para que a aprendizagem dos estudantes fosse crítica e vinculada ao contexto deles. Os objetivos alcançados remetem à própria prática como docente reflexiva sobre o processo de ensino e a aprendizagem dos estudantes.
8 Conclusão
Esta pesquisa desenvolveu-se a partir de inquietações vivenciadas em sala de
aula vinculadas ao ato de ensinar e à necessidade de modificar o processo de
ensino, ao perceber que o modelo tradicional e conteudista muitas vezes não
surtia os efeitos desejados. Como ponto primordial surgiu a necessidade de refletir
sobre a própria prática docente, pois este ponto emergiu quando foi percebido
que o método de ensino, a organização dos currículos e o contexto em geral
não estavam alcançando os objetivos esperados, a partir disso, organizar uma
proposta didática com o tema agrotóxicos contribuiu para refletir sobre novas
possibilidades na docência.
Com a sequência didática aqui sistematizada e o diário de bordo oriundo
das aulas, desenvolvemos reflexões sobre a prática docente pautada na abordagem
temática vinculada à Educação CTS. Os escritos do diário de bordo foram
analisados e emergiu uma categoria final intitulada: Reflexões sobre a prática
docente frente a Educação CTS, que deu origem ao metatexto disposto nesta
pesquisa. Entre desafios, conflitos e inseguranças, pode-se destacar com maior
ênfase as potencialidades fixadas na prática desenvolvida.
A categoria final, definida de forma emergente, se constituiu por meio da análise
dos excertos do diário de bordo. Cada excerto mostrou um pouco da reflexão
que a professora-pesquisadora se propus a fazer sobre a sua própria atuação como
docente, externando seus desafios, facilidades e as necessidades de mudança na
prática docente. Também, a análise demonstrou inseguranças em desenvolver em
sala de aula uma abordagem temática, sobre um tema controverso baseado nos
pressupostos da Educação CTS, insegurança essa que decorreu da preocupação
em alcançar as inter-relações CTS a partir da proposta didática.
Consideramos que o desenvolvimento desta proposta foi rico em trocas,
construção de significados e mediação de conhecimentos, mas como sabemos
todo planejamento pode e deve ser modificado, principalmente para abranger
o contexto ao qual está vinculado. A abordagem em questão obteve êxito,
desenvolvendo de forma coerente e satisfatória com os objetivos propostos a
atingir, mas, como relata o excerto a seguir e com a visão que se tem neste
momento de escrita, “considero que poderia ter feito várias etapas diferentes”,
o que é extremamente normal pois agora o contexto e a visões que se tem são
outras, mais ampliadas, tanto em relação a própria prática como em relação a
temática sobre agrotóxicos.
As potencialidades enfatizadas agregam a necessidade de propor a
abordagem temática e a Educação CTS como proposta de reorganização dos
currículos escolares, pois estas aproximam contextos e conhecimentos científicos,
promovendo a aprendizagem dinâmica dos estudantes e qualificando o processo
de formação de seres críticos e atuantes em sociedade. Aqui ainda cabe
ressaltar que os desafios que foram propostos para enfrentar, constituíram e constituem às pesquisadoras como professoras
reflexivas, que se propõem a mudar
para acompanhar os processos educacionais
necessários ao debate dos avanços científicos
e tecnológicos relacionados ao ensino e a
aprendizagem.
Por fim, essa pesquisa nos propõe a reflexão sobre a atuação docente como mecanismo de modificação e qualificação dos processos de ensino vigentes e que necessitam de aperfeiçoamento. Da mesma forma, ainda abre espaço para a investigação da aprendizagem dos alunos, quando proposta uma abordagem temática, afinal os sujeitos do processo são eles e se torna expressiva a necessidade de ouvi-los para que a reflexão possa se tornar completa. Sobre a prática docente em geral, é necessário destacar que as potencialidades que se originaram com essa reflexão podem e devem ser utilizadas como base para a proposição de reformulações curriculares que objetivam a prática docente por meio de abordagens temáticas com conteúdos subordinados a elas.
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